Antes de perguntar quem o brasileiro escolherá para governar
o país pelos próximos quatro anos, talvez exista uma pergunta anterior:
quem é o Brasil que fará essa escolha?
A pergunta parece simples. Os números mostram que não é.
O Brasil que chega às urnas em 2026 tem uma população
projetada pelo IBGE em aproximadamente 214,2 milhões de habitantes. É um
país ainda em crescimento, mas que cresce cada vez menos — e caminha para uma
transformação demográfica que terá consequências sobre praticamente todas as
grandes políticas públicas das próximas décadas.
[INFOGRÁFICO 1 — O BRASIL ESTÁ FICANDO MAIS VELHO]
As projeções do IBGE indicam que a população brasileira
deverá atingir seu ponto máximo em 2041, com aproximadamente 220,4
milhões de habitantes. Depois disso, começará a diminuir. Em 2070, deverá estar
próxima dos 199,2 milhões.
Por trás dessa curva existem duas mudanças simultâneas: nascem
menos brasileiros e os brasileiros vivem mais.
A taxa de fecundidade caiu de 2,32 filhos por mulher em 2000
para 1,57 em 2023. No mesmo período, a esperança de vida ao nascer passou de
71,1 para 76,4 anos.
E a transformação já aparece claramente na idade da
população.
Entre 2010 e 2022, o número de brasileiros com 65 anos ou
mais aumentou 57,4%, passando de aproximadamente 14 milhões para 22,2
milhões. No movimento contrário, a população de até 14 anos caiu de 45,9
milhões para 40,1 milhões.
Talvez exista uma maneira ainda mais simples de enxergar
essa mudança: em 2010, a idade mediana do brasileiro era 29 anos. Em 2022,
chegou a 35 anos.
Em apenas doze anos, o brasileiro que ocupa exatamente o
meio da distribuição etária envelheceu seis anos.
Não existe um único Brasil demográfico
A média nacional, porém, esconde diferenças enormes.
Em 2022, 25,2% dos habitantes da Região Norte tinham até 14
anos. No Sudeste, eram apenas 18%. A idade mediana ajuda a revelar a distância:
29 anos no Norte contra 37 no Sudeste.
[INFOGRÁFICO 2 — OS VÁRIOS BRASIS DA IDADE]
Isso significa que duas regiões do mesmo país podem chegar à
mesma eleição carregando necessidades demográficas bastante diferentes.
Uma população proporcionalmente mais jovem exige determinada
estrutura de creches, escolas, formação profissional e geração de
oportunidades. Uma população mais envelhecida pressiona de outra maneira saúde,
previdência, acessibilidade e sistemas de cuidado.
São problemas nacionais — mas não necessariamente nas mesmas
proporções em todo o território.
O Brasil mora nas cidades
Outra característica fundamental desse país é onde ele vive.
O Censo de 2022 mostrou que 87,4% da população brasileira
residia em áreas urbanas: aproximadamente 177,5 milhões de pessoas. Apenas
25,6 milhões viviam em áreas rurais. Entre 2010 e 2022, as áreas urbanas
ganharam 16,6 milhões de habitantes enquanto as rurais perderam 4,3 milhões.
Isso ajuda a entender por que tantos dos grandes desafios
nacionais aparecem, no cotidiano, como problemas das cidades: habitação,
transporte, saneamento, segurança, mobilidade e acesso ao emprego.
O campo permanece fundamental para a economia brasileira.
Mas a experiência cotidiana da população é predominantemente urbana.
E esse brasileiro continua mudando de endereço
O território também está em movimento.
Os dados de migração do Censo 2022 mostram uma alteração
importante nos tradicionais polos de atração populacional.
Considerando onde as pessoas residiam cinco anos antes do
Censo, Santa Catarina apresentou saldo migratório positivo de aproximadamente 354
mil pessoas, o maior do país. Goiás ganhou cerca de 187 mil e Mato Grosso,
104 mil.
São Paulo, pela primeira vez desde a introdução desse
quesito censitário, apresentou saldo negativo: aproximadamente 90 mil pessoas.
No Rio de Janeiro, a perda líquida chegou a cerca de 165 mil, a maior em
números absolutos.
[INFOGRÁFICO 3 — O BRASILEIRO ESTÁ MUDANDO DE ENDEREÇO]
Isso não autoriza classificar automaticamente estados como
vencedores ou perdedores. Migração responde a emprego, custo de vida,
habitação, família, aposentadoria e inúmeras outras circunstâncias.
Mas revela que o mapa de atração populacional do país
está mudando.
Mudou também a casa brasileira
As transformações não terminam na rua. Elas entraram dentro
de casa.
Em 2022, 13,7 milhões de brasileiros viviam sozinhos.
O número havia triplicado desde 2000, e quase uma em cada cinco unidades
domésticas do país já era unipessoal.
Também mudou quem responde pelo domicílio.

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